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Abel e Caim
Pe. Célio Ribeiro*
Mito é uma narrativa original, tradicional, integrante de um meio cultural, que utiliza elementos simbólicos e sobrenaturais para explicar o mundo e dar sentido à vida humana. Conforme Mircea Eliade, o mito conta uma história sagrada, revelando um acontecimento ocorrido no tempo primordial. O mito se opõe ao saber racional. O mito atrai em torno de si toda parcela do irracional existente no pensamento humano. A força da mensagem do mito reside, portanto, na capacidade que os mesmos têm de sensibilizar as estruturas profundas, inconscientes do psiquismo humano. Relatando uma série de deuses, heróis e o envolvimento desses com a realidade humana, foi originada uma rica mitologia, constituída por um conjunto de lendas e crenças que, por princípios simbólicos, fornece explicações para a realidade universal, inspirando a arte, a história, a filosofia, a antropologia, a teologia e o Direito.
Nas primeiras páginas do livro do Gênesis podemos encontrar o mito de Abel e Caim. Esse mito pode ser lido em muitos códigos. A tradição judeo-cristã lê num código religioso e moralista, fala de pecado e de desobediência a uma lei divina. O mais viável é a leitura antropológica e filosófica do mito. A partir do mito mencionado, é possível encontrar a desumanização pelo egoísmo e pelo bem estar.
Nesta semana estamos contemplando as cenas do mito com a história real envolvendo os irmãos Jaime e José. O primeiro foi preso no lugar do segundo no Rio de Janeiro. José praticou um crime em Rio do Sul, foi preso e não teve escrúpulo ou o mínimo de sensibilidade ao fazer uso do documento e do nome do irmão. Com isso, se pelo Direito veio a falsificação do real e a quase morte de Jaime, pela Justiça veio uma grande lição para Santa Catarina.
Cenas como essas atualizam a tese de Hobbes: “o homem tornou-se lobo do homem”. Caminhamos para o caos? Ainda não! Tudo tem um significado, até mesmo o silêncio tem uma significação, diria Miguel Reale. Algo positivo há nesse fato: após trinta dias preso, Jaime viu a justiça acontecer pela a ação eficaz da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, uma das instituições mais importantes prevista na Constituição Federal. Foi a Defensoria carioca que fez a justiça acontecer. Caso Jaime fosse detido no Estado de Santa Catarina, a justiça permaneceria cega e o trabalhador Jaime estaria mofando no sistema prisional arcaico que aqui temos, visto que ainda estamos atrasados no processo de implantação da Defensoria Pública, único Estado que insiste em deixar de lado o artigo 134 da Constituição Federal de 1988. Defensoria Pública já em âmbito estadual e municipal!
Pe. Célio Ribeiro, é coordenador estadual da PCr em Santa Catarina. 04/09/2009
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